26/05/2017

Recomeço

Recomeçarei a atividade de escrita neste blog e talvez concentre aqui todas as aventuras com palavras e fotografias, talvez um pouco mais, alguns desenhos - bem precisava de voltar a desenhar e a pintar -, sentimentos. Sim, agora que temos o PR a falar da magistratura sentimental, penso que poderei dar também um contributo ao País.

Po outro lado, isto até está a correr bem a Portugal, que acho que devo aproveitar a maré. Nunca se sabe. :)

Talvez valha a pena focar, em vez de dispersar por vários blogs, facebooks, twitters, instagrams, etc. Ainda não sei como é que se foca, mas saber que é preciso já é um começo, não é?

Penso que será mesmo desta o regresso à blogosfera, onde fui matutino.

Farei algum esforço para que este lugar seja uma sala de convívio agradável, especialmente para os bons amigos e pessoas com gosto pela vida, pelos valores, pela liberdade, pelo assumir individual das responsabilidades, pelo construção de um aceitável coletivo que é o resultado final de um bom espírito.

Abraços!

05/03/2009


Alunos da Universidade Nacional de Timor
Projecto cooperação FUP/UNTL

Festa de alunos da Universidade Nacional de Timor
Projecto cooperação FUP/UNTL

28/02/2009

26/11/2008

etiquette#1. Raquel Gomes
Timor-Leste A ilha insustentável
25.11.2008, Pedro Rosa Mendes, especial para o PÚBLICO
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Este é o retrato implacável de uma realidade que não podemos continuar a fingir que não existe. Estas são algumas das verdades, duras como punhos, sobre um país que sonhou ser diferente - e nos fez também sonhar
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1. Timor não é um Estado falhado. É pior. Falhou o projecto nacional idealizado há uma década
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Em nove anos de liberdade, Timor-Leste não conseguiu assegurar água, luz e esgotos para a sua pequena capital. Baucau, a segunda "cidade", é uma versão apenas ajardinada da favela que é Díli, graças à gestão autárquica (oficiosa) do bispado.
O resto, nos "distritos", é um país de cordilheiras que vive o neolítico como quotidiano, longe do mínimo humano aceitável. Chega-se lá pelas estradas e picadas deixadas pelos "indonésios". Há estradas principais onde não entrou uma picareta desde 1999.
O bem público e as necessidades do povo são ignorados há nove anos com um desprezo obsceno. O melhor exemplo é a companhia de electricidade: durante cinco anos, a central de Díli não teve manutenção de nenhum dos 14 geradores - todos oferecidos -, até que a última máquina de grande potência resfolegou.
O Hospital Nacional Guido Valadares, onde se inaugura esta semana instalações rutilantes, não teve até hoje um ecógrafo decente nem ventiladores nos Cuidados Intensivos. Não há um TAC no país (embora custe o mesmo que dois dos novos carros dos deputados); a menina timorense com que Portugal se comove teve o tumor diagnosticado pelo acaso de um navio-hospital americano que lançou âncora em Díli. A taxa de mortalidade infantil é apenas superada a nível mundial pelo Afeganistão. A mortalidade pós-parto é assustadora. Entretanto, cada mulher timorense em idade fértil tem em média 7,6 filhos.
Circulam entre diplomatas e humanitários os "transparentes" de um relatório do Banco Mundial que conclui que "a pobreza aumentou significativamente" entre 2001 e 2007 (um balanço arrasador do consulado Fretilin, porque o estudo usa indicadores até 2006). Cerca de metade dos timorenses vive com menos de 60 cêntimos de euro por dia e, desses, metade são crianças. Timor é um país rico atolado na indigência, onde os líderes se insultam por causa de orçamentos que ninguém tem sequer unhas para gastar.
2. A "identidade maubere"é uma ficção dispendiosa
A identidade "nacional" do espaço político timorense não existe, como explicam os bons historiadores, que sempre referem no plural os "povos" de Timor. Sob o mito do "povo maubere" existe um mosaico de dezena e meia de entidades etnolinguísticas que se definem por oposição (em conflito, separação, desconfiança, distância) ao "outro", mesmo em aliança. O "outro" de fora, ou o "outro" de dentro. É um tipo de coesão circunstancial e oportunista que morre com o conflito, engendrando a prazo outros conflitos, em ciclos de calma e crise numa ilha com paradigmas medievais.A gesta "maubere" produziu, finalmente, uma inversão cronológica. A RDTL é uma cristalização política de uma sociedade que teve alforria de Estado antes de construir uma identidade que o sustentasse.
A filiação de cada timorense continua a ser à respectiva "uma lulik" (casa sagrada) e às linhagens que definem outros territórios e outras leis que não passam por ministros, juízes nem polícias, mas por monarcas, oligarcas e chefes de guerra. É isto que os líderes tentam ser - ou, de contrário, não são
3. O Estado independente é sabotado pelas estruturas da resistência
O Estado timorense funciona. Não significa, porém, que produza algum resultado, exceptuando a Autoridade Bancária de Pagamentos, única instituição onde a aposta na localização de quadros e a recompensa do mérito fizeram do futuro banco central um oásis de probidade nórdica.
As estruturas operativas do país são paralelas, oficiosas e opacas. Vêm do tempo da resistência e não houve coragem ou inteligência para as formalizar no jovem Estado.
Um caso óbvio é o dos veteranos das Falintil que não integraram as novas Forças de Defesa (FDTL). Em 2006, foi a 200 desses "civis" que o brigadeiro-general Taur Matan Ruak recorreu num momento crítico de sobrevivência do Estado. O Estado-Maior timorense está, porém, a contas com a justiça. Se passar da fase de inquérito, talvez o processo das armas e da milícia "20-20" abra um debate que devia ter acontecido antes. O lugar das "reservas morais" tem de ser formalizado, sob pena de não haver linha de separação entre patriotismo e delinquência. O major Alfredo Reinado ilustrou, de forma trágica, a facilidade deste salto.
As estruturas paralelas, porém, não são exclusivo do sector de segurança. O ex-comandante Xanana Gusmão não esconde que a Caixa, a rede clandestina de "inteligência", continua activa. As fidelidades, mas também os reflexos e atavismos da resistência, continuam em vigor. A "velha" voz de comando é, por vezes, a última instância e, mesmo em Conselho de Ministros, o último argumento é por vezes o voto de qualidade por murro na mesa.
José Ramos-Horta, diasporizado das Falintil e do mato até 1999, não tem cão mas caça com gato. O chefe de Estado, em linha com os símbolos maçónicos debruados nas suas camisas, é desde há dois anos o segundo "pai" da Sagrada Família. É uma sociedade fundada em 1989 pelo comandante Cornélio Gama "L7", que evoluiu para uma combinação algo mística de grupo religioso, partido político e milícia justiceira. Foi "L7", com a bênção de Xanana Gusmão, que apresentou a candidatura de Ramos-Horta à Presidência em Fevereiro de 2007, em Laga. Vários elementos da Sagrada Família integram a guarda do chefe de Estado.
A República timorense é limitada e sabotada pela recorrência do ocultismo, apadrinhamento, vassalagem e mentalidade de célula. No entanto, se não fossem as redes informais de confiança e de comando, por onde passam também os códigos de fidelidade e os valores de grupo, a RDTL já teria implodido.Versão moderna dos Estados dentro do Estado: a última contagem, confidencial, dá conta de 350 assessores internacionais junto do IV Governo Constitucional.
4. A estratégia dominante na sociedade está tipificada no Código Penal. Chama-se extorsão
A simpatia pela "causa" timorense estagnou num ideal de sociedade e de pessoa que é desmentido pela frustrante experiência quotidiana. Ignorância, trauma, miséria e negligência, polvilhados com os venenos da complacência, paternalismo e piedade, banalizaram comportamentos de rapina, desonestidade, egoísmo e má-fé. A solidariedade, a generosidade e a gratidão estão em minoria. O que é marginal ou criminal noutros sítios faz, no Timor de hoje, catecismo nas repartições, nos negócios, no mercado, no trânsito, no lar.
A "liderança histórica" reina sobre um país intratável, em passiva desobediência civil, que pensa e age como se todo o mundo lhe devesse tudo e como se tudo estivesse disponível para ser colhido, do petróleo ao investimento e à atenção internacional. A cobiça e a inveja social infectam a esfera política, social, laboral e até familiar. "Aqui todos mandam e ninguém obedece", para citar um velho timorense educado em princípios que deixaram de ter valor corrente no seu país.A "estabilidade" actual é comprada com um Natal todos os dias. Tudo é subsidiado, desde o arroz ao combustível, com uma chuva de benesses e compensações a um leque impensável de clientelas e capelas. A sociedade civil, digamos, é uma soma de grupos de pressão que recebem na mesma moeda em que ameaçam com incêndios e pedradas, desde os deslocados aos peticionários ou aos estudantes.
Todo esse dinheiro nada produz. Algum sai para a Indonésia, que os novos-ricos timorenses consideram um sítio mais seguro para investir. O que fica compra motorizadas e telemóveis. A Timor Telecom vai fechar o ano com 120 mil clientes na rede móvel, 12 por cento da população, uma taxa ao nível de países com o triplo de rendimento per capita do timorense.
A maioria dos timorenses não paga o que consome: água, electricidade (por isso o consumo aumenta 25 por cento ao ano, um ritmo impossível de acompanhar por qualquer investimento nas infra-estruturas), casa, terra, crédito, arroz. Este modelo de pilhagem e esbanjamento é insustentável na economia, na banca, na ecologia, na demografia e, a prazo, até na política.
5. A ocupação indonésia foi implacável e a líderança timorense desmantela com zelo o que restava: a dignidade
O gangster mais conhecido do submundo de Jacarta nos anos 1990 - o timorense Hércules - é, hoje, o dono de obra no melhor jardim da capital. Os condenados por crimes contra a humanidade, como Joni Marques, da "Tim Alfa" (pôs Portugal de lenço branco em Setembro de 1999 com um massacre de freiras e padres), voltam às suas aldeias com indemnizações por casas que foram queimadas, enquanto eles estavam na prisão.
Na Comissão mista de Verdade e Amizade (CVA), foi a parte timorense, perante a surpresa indonésia, que tentou conseguir uma amnistia geral para os crimes de 1999, com uma persistência de virar o estômago.
O relatório da Comissão de Acolhimento, Verdade e Reconciliação (CAVR), uma monumentae historica de 24 anos de dor em sete volumes, espera há três anos a honra de um debate no Parlamento. Duas datas estiveram marcadas em Novembro, mas, nos bastidores, os titulares políticos tentam obter uma prévia sanitização das recomendações da CAVR.
Mari Alkatiri, Xanana Gusmão e José Ramos-Horta, ao sectarizar a memória da violência, desbarataram o capital obtido à custa de duzentos mil mortos (incluindo os seus entes queridos). A herança do genocídio é aviltada na praça como capital de risco e como cartão de visita. O resultado é uma distopia moral, um abismo de proporções tremendas em que se afunda um país cuja soberania teve, afinal, uma legitimidade essencialmente moral no seu contexto geográfico e histórico.
Os mortos são a parte nobre de Timor, merecedores de tributos em rituais, lutos e deslutos. Mas nesta terra de cruzes, valas comuns e desaparecidos, não houve ainda a caridade de 200 mil euros para instalar um laboratório de ADN que permitisse, enfim, devolver os ossos ao apaziguamento dos vivos.A injustiça e a impunidade são valores seguros em Timor-Leste.
6. Timor fala todas as línguas e nenhuma
Timor é uma ficção lusófona onde a língua portuguesa navega contra uma geração culturalmente integrada na Indonésia, contra a geografia, contra manipulações políticas internas e contra a sabotagem de várias agências internacionais. A reintrodução do português só poderá ter êxito com a cumulação de duas coisas: firmeza política, em Díli, sobre as suas línguas oficiais; massificação de meios ao serviço de ambas.
O Instituto Nacional de Linguística tem 500 dólares de orçamento mensal (exacto, seis mil USD por ano).Na "Babel lorosa'e", como lhe chamou Luiz Filipe Thomaz, não se fala bem nenhuma das línguas da praça (tétum, português, inglês, indonésio). Uma língua é a articulação de um mundo e do nosso lugar nele. Perdidos da gramática e do vocabulário, uma geração de timorenses chegou à idade adulta e ao mercado de trabalho sem muitas vezes conhecer conceitos como a lei da gravidade, o fuso horário ou as formas geométricas, apenas para dar exemplos fáceis.
Aos poucos bancos com balcão em Díli (três) chegam projectos de investimento estrangeiro cujos planos de amortização não prevêem mão-de-obra timorense ou que contam os timorenses como peso-morto na massa salarial, ao lado de operários ou técnicos importados que responderão pela produção.
7. "Entrar nas Nações Unidas é ficar politicamente inimputável"
Diz um diplomata que gosta do teatro de sombras javanês: "A ONU em Díli está em sintonia com os dirigentes timorenses. Todos fabricam fantasmas: o grande estratego, o grande diplomata, o grande guerrilheiro. Se não fosse assim, as máscaras cairiam e seria um grande embaraço..."
A UNMIT, uma das missões mais caras da ONU, afunda-se penosamente no mesmo vazio moral da liderança timorense. Três mil funcionários, polícias e militares, uma massa crítica formidável que poderia ser um contrapeso à incompetência e à insensatez, são esmagados pelo cabotinismo carreirista do chefe de missão, Atul Khare, e de acólitos que acham bem em Timor aquilo que jamais admitiriam nos seus países desenvolvidos. "Entrar nas Nações Unidas é ficar politicamente inimputável", explicou um alto--funcionário da UNMIT.
8. Não há nenhuma bandeira de Portugal no mar de Timor
Não há interesses portugueses em Timor-Leste, porque não há condições objectivas mínimas para fazer vingar qualquer interesse mensurável. Não, decerto, pelos critérios que vigoram em qualquer outro lado. Seria bom que isto fosse entendido pelos nossos responsáveis políticos. Portugal concedeu mais de 440 milhões de euros de 1999 a 2007 em ajuda ao desenvolvimento a Timor-Leste, que consome quase metade do bolo total da nossa cooperação.
Continuando uma tradição portuguesa, as projecções pós--imperiais e os fascínios com sucessivos aprendizes de Mandela ganham precedência sobre as informações que chegam dos operadores económicos no terreno. "Mas você nunca ouvirá um governante português dizer nada contra Timor", dizia, este ano, à mesa do café, um governante português de visita.
9. "Tudo ainda não aconteceu"
A ferida feia no corpo de Ramos-Horta, quando o Presidente jazia numa poça de sangue depois de levar dois tiros de cano-longo, é um buraco tão fundo como a vergonha da nação. A ressurreição do profeta-Nobel criou um cristo gnóstico mas as chagas, nesta terra dilacerada, já não fundam religiões com a facilidade com que há dez anos fundavam Estados.
Díli, como um circo máximo de gladiadores, fervilha de jovens empurrados para a luta. Não têm emprego, educação ou perspectiva. Alguém lhes diz: "Não sois bandidos. Sois guerreiros." Mas dos aswain, os heróis das montanhas timorenses, resta-lhes a coragem física, um retalho de rituais dispersos por grupos rivais e a intransigente sacralização do seu território. Uma mistura inflamável para toda a nação. "A resistência continua mas agora sem rumo. E, sem rumo, só faz merda", diz o ex-assessor de Ramos-Horta para a Juventude José Sousa-Santos.
"Tudo ainda não aconteceu", avisava um "espírito" antepassado, pela voz de uma menina de Ermera, no Natal ainda inocente de 2005.
Díli, Novembro de 2008

13/10/2008


A Idade da Inocência
Raquel Gomes, Galeria Minimal, Porto

24/09/2008

Ellen vai no vapor II, Raquel Gomes
«A Idade da Inocência», Galeria Minimal, até 6 de Novembro
Ellen vai no vapor III, Raquel Gomes
«A Idade da Inocência», Galeria Minimal, até 6 de Novembro
Ellen vai no vapor I, Raquel Gomes
«A Idade da Inocência», Galeria Minimal, até 6 de Novembro

23/09/2008


«A Idade da Inocência»
Exposição individual de escultura e desenho
Raquel Gomes, Galeria Minimal, Porto
20 de Setembro a 6 de Novembro
Escola estatal ou serviço público de educação?
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Já ninguém parece contestar, como noutros tempos, que a educação é essencial para o desenvolvimento sócio-económico de um país, de um povo. É, assim, muito difícil imaginar que tenha havido quem quisesse manter o povo analfabeto para benefício do Estado – do regime vigente, claro – e do próprio, que na ignorância seria mais feliz.
Esse mundo, em que se acreditava que as sociedades avançavam pela cabeça de pequenas elites e pelos braços de massas incultas, está, felizmente, condenado. Embora longe de concretização real, hoje é universalmente aceite que a educação é um direito social de todos e o mais seguro motor de desenvolvimento e de criação de riqueza. Como sabemos, e os exemplos são muitos, mais do que nos recursos naturais, a verdadeira riqueza de um país está nas suas pessoas e no modelo de organização social.
A educação constitui elemento crucial da construção do conhecimento e do desenvolvimento das capacidades e competências do Homem, permitindo-lhe responder melhor a um mundo globalizado e mais exigente, de economias abertas e competitivas.
Mas a formação do ser humano extravasa em muito a questão “material". Ela é também o domínio onde se joga, em complementaridade com outras vivências, a formação de um quadro de valores que é a base das relações humanas. É nesse campo, respeitando a diversidade de pensamento e de opções individuais, tanto quanto possível, que se joga a própria liberdade do Homem e das sociedades.
Neste quadro, e tendo em conta as desigualdades existentes, que não se eliminam por decreto, todos reconhecemos a responsabilidade do Estado na promoção solidária de uma verdadeira igualdade de oportunidades, nomeadamente no acesso à educação.
Portugal fez nas últimas décadas um investimento notável no sector, dos mais elevados entre os parceiros da OCDE, tendo generalizado o acesso da população à escolaridade e recuperado muito do seu atraso estrutural. No entanto, é unânime o diagnóstico que nos diz que a eficiência do sistema educativo deixa muito a desejar, o que é, naturalmente, motivo de grande preocupação.
A obrigatoriedade e gratuitidade da escolaridade básica levaram a um aumento inquestionável das qualificações dos portugueses. No entanto, tendo sido garantida a gratuitidade apenas para o acesso às escolas de iniciativa estatal, isso levou a uma presença hegemónica e centralista do Estado na oferta educativa, reduzindo dramaticamente o direito legítimo dos pais, consagrado na Constituição, de escolherem a educação que consideram mais adequada para os filhos. É um Estado que se sobrepõe aos cidadãos, que deles desconfia, que se julga mais competente, conduzido por uma determinada elite, para decidir em seu nome, tomando para si a função de educar.
Este modelo, obrigando, pelo menos os que têm menos recursos, à frequência de uma escola estatal determinada em função da residência, torna-se prejudicial sobretudo para os mais pobres, que ficam sem opções se a escola dos filhos não tiver a qualidade desejável ou não for ao encontro daquilo que consideram ser a educação adequada. Os que têm meios financeiros pagam uma escola particular, compram casa no lugar certo ou falseiam atestados de residência para colocar os filhos na escola pretendida.
Em semelhança com outras actividades, um sistema monopolista, sem concorrência, garante acima de tudo os interesses de quem o controla, em vez de servir um público com capacidade de escolha.
Como afirmava o Professor Sousa Franco, está em causa a liberdade na educação em dois planos: no plano dos valores, da liberdade como direito do Homem, e no plano da eficiência e utilidade do sistema educativo. Como é fácil de ver, Portugal conserva maus resultados aos dois níveis. Neste modelo, sem liberdade de escolha, em que o Estado é financiador, fornecedor e avaliador, a oferta é igualitarista e pouco dada à criatividade e inovação. Ao mesmo tempo, ele favorece o afastamento das famílias com menores recursos, desprovidas da capacidade de decidir e influenciar. No fundo, ele não gera uma real e proveitosa igualdade de oportunidades. Já nem vale a pena falar na forma muitas escolas estatais, ditas inclusivas, distribuem os alunos pelas diferentes turmas.
Quando um Primeiro-Ministro, uma Ministra da Educação e, apesar dos aparentes interesses distintos, os sindicatos se dizem defensores da escola pública (estatal), devemos reflectir se não haverá aqui um grande equívoco.
Devemos defender a escola estatal como única escolha ou proporcionar a todos um serviço público de educação de qualidade, independentemente da personalidade jurídica do prestador do serviço e da origem sócio-económica dos alunos?

19/09/2008

Importante texto de José Pacheco Pereira no Abrupto:
«COISAS DA SÁBADO:
OS HOMENS QUE BRAMAM CONTRA OS IANQUES DE MERDA
Homens como Chávez na Venezuela e Morales na Bolívia são perigos públicos em qualquer parte do mundo. Estes homens em nome das ideias mais simples, abstractas e redentoras, uma mistura de comunismo e nacionalismo, mais altermundialismo, anti-capitalismo e anti-americanismo, temperados num populismo caudilhista, uma mistura explosiva, vão espatifar os seus respectivos países. Mas, como é habitual a esquerda recebe-os com complacência e com secreta admiração e a direita acha-os uns palhaços locais colocados no poder por índios analfabetos, a que não se deve ligar muita importância desde que não se viva na América Latina. É verdade que foram legitimamente eleitos, mas convém lembrar que a democracia para existir não se basta no acto eleitoral, implica respeito pela lei, que eles violam todos os dias, e pluralismo político, que eles esmagam pela prepotência do estado e se for preciso, das massas arregimentadas nas ruas. Infelizmente tudo isto é clássico na América Latina. Já se sabem as consequências.»

18/09/2008

A Idade da Inocência
Raquel Gomes, Escultura e Desenho
Galeria Minimal, Rua Miguel Bombarda, Porto
Inauguração no próximo sábado, 20 de Setembro, 16 h








Amanhecer. AEF'2004

09/09/2008

19/08/2008

08/08/2008

Viagem a Baucau. Timor-Leste. AEF'2004
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Paragem em casa dos pais de um aluno da Universidade Nacional de Timor-Leste para dois dedos de conversa. O aluno não foi connosco, por isso levámos cumprimentos seus aos pais, que foram muito amáveis, como é costume em Timor. Falámos do "tempo dos portugueses", do "tempo dos indonésios", do presente e do futuro. E registámos o momento para a posteridade. Da esquerda para a direita: Amaral, Ângelo, menina timorense, pai do aluno (do qual não recordo o nome), Hercílio e Filomeno. Disparou a máquina o João Verdial. Abraço a todos.
Sport Díli e Benfica. Díli. Timor-Leste. AEF'2004
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Uma prenda aos benfiquistas. Este local, que tinha sido a sede do Benfica em Díli, manteve-se com a placa que o denuncia durante todos estes anos, mesmo sobrevivendo à invasão indonésia. Na altura em que estive em Timor-Leste era uma casa de consumíveis de escritório e fotocópias.
Porto de Díli com farol ao fundo. Timor-Leste. AEF'2004
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Que saudades enormes deste lugar maravilhoso. Vejo o Porto de Díli, à esquerda, e o Bairro de Motael, escondido sobre o arvoredo. A marginal, que tem o nome de Avenida de Portugal, e lá no extremo o farol, dizem que o mais antigo do Oriente, construído pelos portugueses. Este será já uma versão mais actual, talvez uma reconstrução do antigo. E a Baía de Díli, esse sítio mágico, onde tantos fins de tarde atirei à água garrafas imaginárias com mensagens para Portugal, para a família e os amigos. Deste sítio onde tirei a fotografia pensei tanto no conjunto de coincidências - será? - que me levram a Timor-Leste, na luta dos timorenses pela liberdade e nas dificuldades enormes em construir um país desenvolvido, com paz. Que saudades!

05/08/2008

As pessoas não são abstracções
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Anton Tchekov (1860-1904) é um escritor (russo) que muito aprecio, especialmente pela forma como descreve paisagens, quer reais, quer do espírito, e, assim, chega às profundezas da alma humana. No seu conto “A Minha Mulher”, recentemente publicado pela Quasi (2.ª ed.) e oferecido pelo Diário de Notícias, o senhor Pavel Anndreievitch, um abastado ex-funcionário do Ministério das Comunicações, estimulado por uma carta anónima, é tomado de preocupação com os habitantes do lugar de Pestrovo, perto da sua residência, que vivem miseravelmente, numa luta desigual contra o frio, a fome e uma epidemia de tifo.

Tendo resolvido fazer uma generosa doação de dinheiro aos famintos, reflectia na melhor forma de o aplicar. Pensou em comprar trigo e distribuí-lo, mas a tarefa era enorme para um só homem e tinha receio de agir precipitadamente, correndo o risco de socorrer quem menos precisava ou mesmo beneficiar algum explorador de camponeses pouco escrupuloso.

(Mondrian)

Pavel, tendo pensado recorrer à Administração da Província, logo recuou, pois não tinha nenhuma confiança nos seus burocratas, que considerava materialistas e sem ideais. Dizia mesmo que os funcionários das repartições do distrito, tendo tomado o gosto aos proventos do Estado, «insaciavelmente abririam as suas goelas para se fartarem com alguma nova receita suplementar».

Esta pequena história, com o devido distanciamento, trouxe-me à cabeça alguns aspectos que merecem reflexão no actual contexto de crescentes dificuldades sócio-económicas, que têm feito aumentar assustadoramente o número de pessoas e famílias em situação de fragilidade.
É preciso construir uma sociedade de confiança e mais solidária, onde todos assumam o seu papel, vendo os mais necessitados como pessoas concretas e não como números, abstracções científicas ou políticas, ou mesmo como vergonhosa fonte de receita.

Os avultados recursos que depositamos nas mãos do Estado – essa entidade tantas vezes vista igualmente como uma abstracção, todos e ninguém, uma complexa multiplicidade de estruturas e serviços, uma fonte de rendas – nem sempre servem os mais necessitados, sendo muitas vezes aplicados em programas centralistas, assistencialistas, desfasados das diferentes realidades locais e pessoais.

OMovimento Esperança Portugal” (MEP), do qual faço parte, defende como prioridade da acção política a construção de uma “Mesa com Lugar para Todos”, que é o mesmo que dizer que não podemos deixar ninguém para trás, que não podemos admitir o abandono dos mais vulneráveis, dos mais necessitados. Como nem sempre a pobreza é visível, é preciso espreitar no escuro, nos vãos de escada da sociedade, e olhar aqueles que precisam nos olhos, estendendo-lhes uma mão amiga, que os levante do chão.

Mas esta Mesa é um lugar em construção, que todos temos de ajudar a pôr, e que vai muito para lá de uma rotineira sopa para pobres. Se é urgente e irrecusável fazer frente às necessidades mais básicas, deve sempre procurar garantir-se a dignidade da pessoa ajudada e, na medida do possível, integrá-la nessa dinâmica de construção, em vez de perpetuar um assistencialismo frio e desresponsabilizante. A ajuda não pode revelar-se diminuidora do potencial da pessoa humana, escravizada na bondade, nem a pobreza pode tornar-se negócio do infortúnio.

O MEP defende, também neste sentido, que o Estado deve respeitar o Princípio da Subsidiariedade, descentralizando e sendo parceiro de dinâmicas locais e comunitárias, fortalecendo-as, em vez de as substituir ou procurar anular. Na ajuda aos mais necessitados, ganha especial relevância o apoio às instituições que estão no terreno, especialmente as do sector social, que melhor conhecem as pessoas, os seus contextos familiares e sociais, as suas necessidades e potencialidades, garantindo uma melhor eficácia na aplicação dos recursos, desde logo com cuidada atenção à sua dignidade e numa dinâmica de plena reintegração.

Exigir que ninguém fique fora da mesa é também exigir o cumprimento destes valores e da acção de cada um. Atirar a solidariedade para o Estado é fácil, serve para aliviar consciências e, com o discurso certo, para ganhar votos. Sem responsabilizar num abraço quem partilha e quem recebe, corre-se o risco de se amar toda a humanidade, sem amar nenhuma pessoa em concreto.

04/08/2008


Sir Ken Robinson

Este guru internacional da criatividade e liderança, eu diria também da Educação, faz aqui uma conferência profundamente inspiradora sobre a criação de um sistema educativo que acabe com a normalização, uniformização, e promova a criatividade.

Uma "lição" que não se pode perder, especialmente em Portugal!

Morreu (no Domingo) o escritor Alexandre Soljenitsyne
As pessoas não são abstracções
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Anton Tchekov (1860-1904) é um escritor (russo) que muito aprecio, especialmente pela forma como descreve paisagens, quer reais, quer do espírito, e, assim, chega às profundezas da alma humana. No seu conto “A Minha Mulher”, recentemente publicado pela Quasi (2.ª ed.) e oferecido pelo Diário de Notícias, o senhor Pavel Anndreievitch, um abastado ex-funcionário do Ministério das Comunicações, estimulado por uma carta anónima, é tomado de preocupação com os habitantes do lugar de Pestrovo, perto da sua residência, que vivem miseravelmente, numa luta desigual contra o frio, a fome e uma epidemia de tifo.
(amanhã no Diário de Aveiro)

01/08/2008


Tony Bennet e Michael Buble


Sangue Latino. Ney Matogrosso. 01/08/1941

No dia 1 de Agosto de 1744 nascia Jean-Baptiste Lamarck, o famoso biólogo - ele próprio cunhou o termo biologia - que tanto influenciou a ciência, nomeadamente com as suas teorias sobre a evolução das espécies, até ter aparecido Charles Darwin, que revoluciou toda a forma de pensar até então vigente. Mas é preciso reconhecer no trabalho de Lamarck a devida importância e talvez mesmo a base imprescindível para o trabalho de Darwin e muitos outros que vieram a seguir. Quando se abandona uma teoria científica, que se prova estar errada, é importante não esquecer o contributo que ela deu à ciência, permitindo o seu avanço. É preciso reconhecer o valor do erro na procura da verdade.
SOMBRAS DE LAMARCK
A mulher de César e a Justiça
Crónica no Diário de Aveiro